Indagações



Cansei de dar às pessoas
o que elas não buscam
Cansei de filosofar
Agora eu só quero
Trepar no sofá.

Há o sistema e o subsistema
A prefeitura, e a subprefeitura
O problema e o teorema
O trouxa e o professor

O movimento dos olhos
indica a frequência
Qual é a sua afinal?

Quem enxerga o corpo
se quiser, pode ver a mente
É só estar habilitado.


Apenas, o que distorce o verdadeiro entendimento das coisas são os nossos preconceitos.

As pessoas com lombriga são muito simpáticas. Exceto a dona Leda. Todos os dias, acordo com o barulho da sua vassoura batendo de encontro ao rodapé das paredes, nas áreas comuns do condomínio. Ouço apenas o barulho das vassouradas. Ela mesma nunca produz som algum, nunca diz nada. Apenas varre, em silêncio, andar por andar do edifício. No começo, quando vim morar na kit, ficava intrigado com sua atitude. A mulher começa a limpar os 18 andares do prédio às 5 horas da manhã, e vai assim o dia inteiro, descendo e subindo as escadas de um andar ao outro, varrendo, lavando o lixo pra cima e pra baixo, encerando; sem nunca dizer nada. Nem ao menos bom dia. Pra falar a verdade, ela mal ergue a cabeça para olhar para os lados ou para frente. Apenas limpa. Teve um tempo em que eu até ficava imaginando se ela não seria,  quem sabe, alguma espiã russa, e que, na verdade, estaria atrás dos meus escritos (?)

Certo dia, em uma manhã fria do mês de maio, bem cedo, eu estava tomando banho, quando então ouvi suas vassouradas já bem perto da minha porta. Com o susto que levei, o sabonete escapuliu das minhas mãos e...

Mais tarde, comprando frango e Coca-Cola no supermercado da Regente Feijó, topei com uma mulher muito elegante e falante. Diga-se de passagem., o oposto da dona Leda. Um corpo escultural e olhar de cobra. A beleza feminina é algo que me atrai. Como o açúcar atrai a formiga. Não queria que as coisas fossem assim tão animal, porque hoje sei o quanto essa "beleza estética" é relativa e efêmera. Uma embalagem apenas. Padrões culturais.

Na sequência, fiquei chocado, ao ver essa mesma pessoa tirando meleca do nariz e limpando os dedos em seu vestido florido (argh!). Depois, ainda por cima, passou a manipular algumas embalagens de mussarela fatiada. Por isso, quando chegou em casa, eu sempre lavo essas embalagens plastificadas antes de guardá-las na geladeira.

De volta para kit, passando pela rua do meio, a alguns metros do Templo Votivo, avistei dois cachorros pretos deitados próximos a umas caixas de papelão e um monte de entulho, junto a um poste, onde havia afixado um cartaz de uma cartomante, já envelhecido e esfacelado pela chuva. Um deles parecia morto, ou  apenas dormia, pois estava com parte do rosto (os olhos principalmente) encoberta pelas patas dianteiras, a fim de proteger-se do frio e do vento. Enquanto o outro, chamado Pleonasmo, acompanhou atentamente minha passagem, não sem adicionar, inconscientemente, é claro, uma discreta pincelada de sarcasmo no olhar, ao mesmo tempo em que lambia em êxtase a ponta do próprio focinho, vibrando brevemente o rabo.

Já no elevador, um grupo de sete pessoas com cara de turistas argentinos, olhando para o enorme espelho existente na parede do fundo, parecia fitar o infinito. Estavam todos muito silenciosos, com expressões contidas, e nem sequer se olhavam, como se alguém ali tivesse soltado um peido, e fosse  eu o autor do estrago. Eu heim! Na verdade, não pareciam sequer respirar.

Durante a madrugada, despertei lentamente de um pesadelo, do qual não consigo nunca lembrar o enredo, mas apenas os personagens.

Os automóveis passavam na Glicério, e o ronco de seus motores me sugeria meteoritos que se afastavam para os confins do asfalto. Aos poucos, fui buscando o foco da visão, olhando para um ponto no teto acima da cama. Pensava em nós, naquele dia, antes do almoço, no agora e no depois. Ao mesmo tempo, distraidamente, passava os dedos pelos fios de cabelo, tocando suavemente o couro cabeludo, todo ferido. Primeiro com o médio, depois com o anular, e  em seguida com o indicador. Percebi então que, na têmpora direita, havia um pequeno ponto sensível. Algo quase como uma dor, ou um ardor. Ainda na escuridão, passei a examiná-lo suavemente com a ponta das unhas.

Parecia um furo. Pensei - Poxa! Apenas na escuridão da noite é que podemos admirar a beleza de um céu estrelado. O brilho silencioso e prateado da lua...

Continuando a acariciar aquela cabeça suja com os dedos, tive a impressão de que o furo respirava e se movia. Comecei então a sorrir com a minha boca vazia. Alguns seres oníricos haviam finalmente escapado por ali, e se divertiam na cozinha comendo bolo de fubá. Como há anos eu já havia previsto.

Ao lado da cama, a pequena geladeira branca emitia ruídos como os provenientes de uma barriga em processo de digestão. Foi quando eu resolvi levantar, e ver o que estava se passando ao meu redor.

Procurei os chinelos, tateando o tapete feito artesanalmente com barbante, e localizei apenas o pé direito. Ouvi a seguir o barulho do acento plástico batendo contra o vaso sanitário no banheiro, e movimentei rapidamente a cabeça, inclinando-a um pouco para a esquerda, de modo a liberar a audição do ouvido direito. Como um pássaro surpreendido ao  recolher alimentos no chão. Já em pé, junto à janela, puxei um pouco a cortina, e vi o Fabiano lá embaixo sentado na calçada, em frente à loja Americana Express, tentando dormir, encostado em seu saco com panos sujos e fedidos. Lembrei-me então da vó da Karen e as histórias babacas de terror que ela nos contava, à tarde na varanda após o banho com sabão de coco Pedras de Mármore. Reproduzi agora fielmente em minha memória o cheiro e o barulho da água saindo do chuveiro naqueles dias distantes.




Abrindo um pouco mais a janela a fim de avistar a base do prédio, deixei que a brisa fria entrasse e se acomodasse por toda kit, como numa reunião de almas. Algumas gotas de parafina pingaram no fundo branco da pia, sobre pratos com restos de frango e salada, movimentando os talheres sujos de gordura, produzindo uma breve e assustadora sequência melódica. O relógio na parede do outro cômodo marcava 2h25.

Se nós somos fenômenos energéticos que ocorrem no Universo, o que seriam então aqueles momentos? Confluências? Reações químicas? Alguma experiência?
No que estaríamos de fato nos transformando?
Em movimento?
Em luz ?
Em silêncio?
Em nada?